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arquivo | 29 maio 2004

Bye, Bye, Primeiro Mundo

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A política externa do governo FHC rendeu ao Brasil o respeito do Primeiro Mundo. A de Lula, porém, ressuscita o terceiro mundismo dos discursos nacionalistas do século passado, e com ela corremos o risco de perder tudo o que conquistamos. Essa é a grande diferença. Para FHC, mais importante do que integrar o Conselho de Segurança da ONU era ser convidado para uma reunião do G7.

Não foi por acaso que Bill Clinton convidou FHC para passar um fim de semana em Camp David, em 1997 -aliás, o único brasileiro a ter esse privilégio. Na intimidade da casa de campo do presidente dos EUA, a cena era a seguinte: Clinton bebia refrigerante da lata enquanto trocava confidências com FHC. No sofá em frente, Hillary contava a dona Ruth sobre sua viagem à África.

É difícil imaginar cena semelhante entre Lula e Tony Blair ou George W. Bush. Mas é perfeitamente possível que algo semelhante ocorra entre Lula e Hugo Chávez; talvez Fidel Castro. Ou, quem sabe, Muammar Gaddafi.

Mesmo assim, toda vez que Lula desembarca no exterior, teima em reinventar nossa política externa, transformando-a num espetáculo de propaganda e frases de efeito. Puro pastel de vento. FHC, por sua vez, soube representar o Brasil com competência, discrição e profissionalismo, levando ao pé da letra a máxima do barão do Rio Branco de que “é possível que, renunciando à igualdade de tratamento, alguns se resignem a assinar convenções em que sejam declarados e se confessem nações de terceira, quarta ou quinta ordem. O Brasil não pode ser desse número”.

Hoje, Lula, que não aprendeu a lição de Rio Branco, retalia os EUA, mandando tirar impressões digitais de turistas americanos. Ontem, os diplomatas de FHC travavam batalhas duríssimas na OMC, contra Washington, para proteger das barreiras americanas os nossos produtos. Apoiado pela União Européia, o Brasil derrotou os EUA no caso da quebra de patentes para os medicamentos contra a Aids.

A política externa do governo passado carimbou o passaporte do Brasil para uma cadeira no conselho do Banco de Compensações Internacionais (BIS), o banco central dos bancos centrais do mundo, com sede na Suíça, dando ao país status jamais visto no âmbito da comunidade financeira internacional.

Uma das grandes vitórias da diplomacia da era FHC foi a criação de um grupo composto pelas sete nações mais ricas do mundo e as 15 principais entre as emergentes. A partir desse grupo, criou-se um canal permanente de diálogo e debate de idéias e reivindicações em que o Brasil era ouvido e respeitado.

Em momento nenhum nossa política externa perdeu a identidade ou deixou de lado os ideais de democracia e defesa dos direitos humanos.

Quando o então ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, visitou Havana, em 1998, encontrou-se com o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação de Cuba, Elizardo Sanchez. Ao mesmo tempo em que criticou a intolerância da ditadura cubana em relação às liberdades individuais, o governo FHC participou de programas de recuperação da economia cubana, abriu linhas de crédito para importação de alimentos brasileiros e condenou a política americana de sanções. Hoje, nosso embaixador em Cuba, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas, acha normal jornalistas apodrecerem nos cárceres de Havana.

O presidente Lula foi à China e anunciou um suposto acordo de cooperação nuclear, cujo maior obstáculo para virar realidade é nossa legislação. Ou o presidente foi mal orientado, ou foi precipitado, o que, do ponto de vista da política internacional, é um erro crasso. Para os chineses, essa visita ampliaria ainda mais as relações entre Pequim e Brasília, que tiveram seu auge no governo FHC. Entre 2000 e 2001, o comércio entre Brasil e China dobrou e o primeiro satélite sino-brasileiro da séria Cebris entrou em órbita.

Porém o maior exemplo da influência conquistada pelo Brasil aconteceu no auge da crise entre China e EUA, quando um avião americano invadiu o espaço aéreo chinês e foi capturado. O presidente George W. Bush pediu a FHC que interferisse para ajudar a solucionar o impasse. Certamente, Bush agiu com base na excelente imagem construída pelo Brasil entre 1995 e 2002. Os principais institutos de pesquisa americanos registraram que, ao final da década de 1990, 75% dos formadores de opinião identificavam o Brasil como sendo um dos países considerados vitais para os EUA. Em 2000, sondagem da Universidade de Chicago concluiu que 71% dos formadores de opinião acreditavam que as empresas americanas deveriam continuar investindo no Brasil e 87% consideravam nosso país importante parceiro comercial. A política externa voltada para a inserção do país no Primeiro Mundo dera resultado. É lamentável que o governo Lula despreze tais conquistas e empurre o Brasil para a periferia dos centros de decisão.

Gilberto Kassab, 43, economista e engenheiro civil, deputado federal pelo PFL-SP, é secretário nacional do partido e presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados.

Folha de S.Paulo – Tendências/Debates – 29/05/2004