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arquivo | 01 janeiro 2007

Folha de S.Paulo entrevista Gilberto Kassab

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ENTREVISTA DA 2ª – GILBERTO KASSAB

A aliança com o Serra está mais forte do que nunca

Prefeito de SP elogia idéias petistas, como Renda Mínima e CEUs, e diz que não é hora de pensar em reeleição 

EVANDRO SPINELLI
LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Duas das principais bandeiras políticas da administração Marta Suplicy (PT) estão mudando de mãos. Há nove meses no comando da Prefeitura de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL) tornou-se um entusiasta inesperado dos Centros Educacionais Unificados, os CEUs, e do programa Renda Mínima.
Se à época da eleição a chapa José Serra-Kassab (o primeiro candidato a prefeito, o segundo a vice) referia-se pejorativamente aos 24 CEUs feitos por Marta, acusando-os de perdulários -“os CEUs têm 5% dos alunos e consomem 40% da verba da educação”, criticava o tucano-, hoje Kassab contabiliza entre os melhores feitos de seu governo a construção de 15 novos CEUs, oito em obras, sendo que quatro começarão a funcionar já neste ano.
Quanto ao programa de transferência de renda da prefeitura, o Renda Mínima, vitrine da administração Marta, esta semana foi vitaminado por iniciativa de Kassab. O tíquete médio pago por família foi de R$ 128 para R$ 160 e a prefeitura já anunciou o crescimento no número de famílias atendidas: das 110 mil atuais passará para 130 mil em 2007.
Aliados identificam na adoção de projetos da gestão Marta um esforço sistemático para solapar as bases petistas da cidade, conquistando-as para a aliança PSDB-PFL sob a liderança de Serra, a quem Kassab jura lealdade: “A aliança está mais forte do que nunca, agora com Serra no governo”.
O pefelista não gosta de falar sobre a eventual candidatura a prefeito em 2008, para suceder a si mesmo. “Na hora certa vamos identificar qual é o melhor caminho para a cidade, avaliar a gestão, daí ver [o que fazer].”
Olhos azuis, engenheiro e economista formado pela USP, sócio do tradicional Clube Pinheiros, Kassab, 46, saiu definitivamente da obscuridade quando autorizou aumento de 15% nos ônibus, em dezembro.
Seu nome então foi gritado por todo o centro da cidade em passeatas que o acusavam de defender os interesses das viações. “Por que em outras cidades a tarifa também custa R$ 2,30 e só aqui tem protestos?”
Ele também enfrentou oposição renhida quando tentou aumentar o IPTU -teve de recuar, mas leva numa boa: “A gente debateu, discutiu, e houve alterações. Se estou sendo acusado de ter debatido democraticamente, então aceito essa acusação de bom grado”, diz.
Na última quinta, Kassab recebeu a Folha em almoço no Edifício Matarazzo, sede do governo municipal. Entre garfadas de filé e purê de abóbora, concedeu a entrevista a seguir:

FOLHA – Como o sr. avalia os seus primeiros nove meses?
GILBERTO KASSAB –
 Passou aquela fase de especulação em relação a mudanças no rumo. Está claro que tivemos uma mesma linha desde o primeiro dia e essa linha não foi mudada. Essa não é uma administração do PFL, continua sendo uma administração do PSDB com o PFL, com os mesmos bons quadros e com o mesmo programa. E vai ser assim até o último dia.

FOLHA – O senhor pensa em ser candidato à reeleição em 2008?
KASSAB –
 Não. A democracia amadureceu muito. O cidadão não está pensando em eleição. Se o eleitor não está pensando, o administrador que tem sensibilidade também não está pensando. Então, não penso nem em ser nem em não ser. Essa preocupação não está na pauta, e na hora certa estará na pauta.

FOLHA – O governador Lembo acha que o sr. tem de ser candidato.
KASSAB –
 É a posição dele. Na hora certa vamos identificar o melhor caminho para a cidade, avaliar a gestão, daí ver. Defenderei a manutenção da aliança PSDB/PFL. Essa aliança tem um líder, uma figura maior, o governador José Serra.

FOLHA – O sr. tem projeto para 15 CEUs e ampliou o Renda Mínima. O sr. está querendo avançar sobre as bandeiras da Marta?
KASSAB –
 O administrador tem de ser responsável. Passou a época do sensacionalismo de dizer que está tudo errado. Existem programas, temos de dar seqüência a eles. O brasileiro amadureceu, a democracia está consolidada, ele enxerga a postura do administrador. Então, cabe a nós dar seqüência ao que existe na cidade. As administrações se sucedem. Eleição é um processo e administração é outro. A nossa postura é de respeito com a cidade.

FOLHA – O PFL e o PSDB criticaram o Bolsa Família na campanha por achá-lo assistencialista. Por que o Bolsa Família era assistencialista e o Renda Mínima é tão bom que precisa ser ampliado?
KASSAB –
 Tínhamos denúncias do uso político do Bolsa Família. Eu ratifico aqui a posição do PSDB e do PFL. E se eu souber que o Renda Mínima em São Paulo tem uso político, haverá punição exemplar.

FOLHA – O sr. era desconhecido quando assumiu a prefeitura e agora é alvo de protestos. Como o sr. lida com essa situação nova?
KASSAB –
 Quem nunca teve presença numa eleição majoritária não pode ser conhecido de 11 milhões de habitantes, seja no primeiro dia que assumiu, seja hoje. É uma situação atípica, que não me incomoda, mas continuo com uma motivação muito grande de, no final da gestão, ser reconhecido como um bom prefeito da cidade. Quanto às manifestações, não há administrador que goste de dar tarifa. Eu gostaria que a tarifa fosse zero. O que é estranho é que em São Paulo as pessoas que andavam de metrô e ônibus pagavam a tarifa do metrô e a do ônibus. Para andar de trem e ônibus, a tarifa do trem e a do ônibus. E hoje elas pagam uma tarifa só. Hoje nós temos uma tarifa que infelizmente é o mínimo possível, R$ 2,30, porque nós temos nosso limite. Diversas outras cidades têm [essa tarifa] sem os mesmos benefícios. E só estou vendo manifestações na cidade de São Paulo.

FOLHA – Alguns dos projetos de mais visibilidade da prefeitura, como habitação e reforma das marginais, dependem de verbas do governo do Estado. O sr. não se sente “amarrado” ao governador Serra?
KASSAB –
 São Paulo tem um Orçamento de R$ 21,5 bilhões. O Orçamento estadual chega a quase R$ 90 bilhões. E o Orçamento federal, centenas de bilhões. É evidente que os municípios trabalhem em parceria com os Estados e com a União.

FOLHA – O governador Serra tem sido chamado de “prego”, mistura de prefeito com governador. O sr. tem sido chamado de secretário para assuntos de São Paulo do Serra.
KASSAB –
 A relação com o governador Serra é a melhor possível, pessoal, política e partidária. Ele foi eleito prefeito de São Paulo, é o programa de governo que ele construiu, e é uma satisfação tê-lo junto pensando a cidade. Seria de estranhar se ele não estivesse pensando a cidade de São Paulo.

FOLHA – A cidade parece que está mais suja.
KASSAB –
 Eu discordo. Eu acho que está mais limpa. E as últimas manifestações de entidades, pessoas que fazem pesquisa em bairros, têm nos dito que um dos principais itens da avaliação da cidade é a qualidade de seu serviço, sua manutenção, limpeza. A cidade pode não estar no ideal, mas muito mais limpa que em anos anteriores.

FOLHA – Então por que aumentou o número de reclamações em relação à limpeza pública?
KASSAB –
 Eu não sei em relação às gestões anteriores, mas nesta tem transparência total. As manifestações são abertas ao público, nosso sistema é totalmente franqueado à imprensa e eu posso afirmar a você que a cidade está mais limpa.

FOLHA – O combate à poluição visual é seu projeto de mais visibilidade? O sr. acha que ele pega?
KASSAB –
 Eu vejo muita aceitação a esse projeto. A Justiça está avaliando e eu tenho certeza absoluta que ela vai chegar às suas conclusões pela legalidade do projeto. Vai mudar a fachada de São Paulo, torná-la mais humana. Nós vamos poder conhecer a nossa cidade, nossa arquitetura, nossos prédios, os modernos, os velhos, os bonitos, os feios, as nossas avenidas, os nossos bairros. Eu tenho certeza absoluta de que em poucos dias nós vamos iniciar as ações para fazer do Cidade Limpa um importante projeto para a cidade de São Paulo. Não para o prefeito, para a cidade.

FOLHA – O sr. é vice-presidente da Associação Comercial, que conseguiu liminar contra o Cidade Limpa.
KASSAB –
 Tem um grupo de empresários que questiona a legalidade da lei. Eles fazem parte da entidade como eu faço e eles têm todo o direito de reivindicar que a entidade argumente a ilegalidade da lei. Tenho certeza que a lei é legal e vejo com muita naturalidade essa ação da associação, atendendo a alguns associados. Eu acho que meu comportamento seria inadequado se eu fosse impedir a entidade de corresponder ao desejo de parte dos associados.

FOLHA – Como o sr. analisa a transição de governos em Brasília e São Paulo? Como o sr. acha que ficarão as composições políticas?
KASSAB –
 Eu acho que hoje você tem bem identificado dois núcleos políticos no Brasil. Você tem de um lado o PT com o PMDB e alguns outros partidos. É muito claro isso. O PT conseguindo trazer o PMDB e o PMDB indo ao projeto do PT. E tem do outro lado PSDB, PFL e alguns outros partidos. Há anos você não tinha no Brasil essa clareza. O PMDB, por exemplo, tinha uma situação dúbia. Agora o PMDB está no governo, quer estar no governo, unido. Então, eu vejo essa grande diferença dos anos anteriores, esse quadro muito claro de quem é situação e de quem é oposição.

FOLHA – Como será a eleição municipal, as principais forças?
KASSAB –
 Acho que é muito prematuro. O importante agora é concentrar os esforços no Poder Executivo, nas metas.

FOLHA – O sr. não acha que existe uma fraqueza dos partidos de oposição no sentido de entrarem nas discussões de assuntos que também interessam ao país, como aborto, eutanásia, tem agora anencefalia?
KASSAB –
 Não. É um bloco que faz oposição e que durante dez anos governou o país com propostas, ações, que melhoraram muito o país. Sobre questões que são visões de mundo, cabe aos líderes se posicionarem, todos aqueles que têm atuação na vida pública, a cada momento que demandado se manifestar, emitir suas opiniões, que nem sempre são partidárias.

FOLHA – Qual título o sr. gostaria de ter nesta reportagem?
KASSAB –
 (pausa) A meta de Kassab é ser um bom prefeito.

Folha de S.Paulo – 01/01/2007