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noticias | 29 janeiro 2019

Gestão Kassab garantiu funcionamento do supercomputador brasileiro

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O Brasil não pode prescindir de supercomputadores e da capacidade de utilizá-los se quiser competir internacionalmente. A avaliação é do diretor do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), Augusto Gadelha Vieira, que, em entrevista, fala sobre a importância do Santos Dumont, o supercomputador localizado no Rio de Janeiro que é a principal plataforma computacional da América do Sul.

Operado pelo LNCC, unidade de pesquisa vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o equipamento batizado em homenagem ao pioneiro da aviação é uma das principais ferramentas do sistema nacional de Ciência e Tecnologia. É empregado em diferentes projetos de pesquisa, a exemplo da simulação computacional de fenômenos naturais, físicos e biológicos, além de estudos relacionados ao Zika Vírus e o mosquito Aedes aegypti.

Na entrevista a seguir, Augusto Gadelha Vieira enumera outras atividades do laboratório além de tratamento de dados, como computação quântica, segurança cibernética, aplicações em biologia, energia, óleo e gás. E explica os novos paradigmas na aplicação de ciência computacional para promoção de pesquisa científica, como a aplicação do “Big Data” (análise de grande volume de dados) para observação de fenômenos e formulação de suposições e padrões científicos.

O pesquisador faz também um balanço positivo da gestão do ministro Gilberto Kassab à frente do MCTIC, destacando por exemplo que Kassab “transmitiu uma atitude de querer resolver, no melhor dos limites de seu mandato, os problemas aguçados que afetavam todo o setor de Ciência e Tecnologia. A sua liderança política, seu compromisso e seu entusiasmo pelas questões da Ciência e Tecnologia foram os elementos que contribuíram para um excelente desempenho à frente do MCTIC, conseguindo apoio do Governo e maiores recursos para o setor”.

Gadelha lembra ainda que “foi um período difícil, com grandes cortes orçamentários, mas o ministro e sua equipe demonstraram capacidade para atender demandas mais urgentes, impedindo que, de forma figurativa, o barco afundasse. Sua habilidade política e entusiasmo foram determinantes para tal”.

Veja a entrevista a seguir:

O LNCC é um importante centro de pesquisa e ensino e também tem um papel simbólico para a ciência brasileira, já que abriga o supercomputador Santos Dumont. Como qualifica o papel da entidade e como busca exercê-lo frente à sociedade?

O LNCC disponibiliza para toda a comunidade científica do país a plataforma computacional de mais alto desempenho na América do Sul. O supercomputador Santos Dumont com capacidade de processamento de até 1,1 quatrilhão (ou milhão de bilhões) de operações matemáticas por segundo. Para se ter uma ideia dessa capacidade, um problema matemático que necessite 24 horas de processamento no Santos Dumont para ser resolvido levaria cerca de 24 anos em um computador de mesa de última geração. Esse supercomputador é hoje utilizado em mais de 120 projetos nas mais diversas áreas do conhecimento por pesquisadores em 12 Estados.

Supercomputadores são necessários para a solução, em tempo razoável, de problemas de mais alta complexidade em diversas áreas. A supercomputação é hoje um instrumento essencial para a Ciência e Tecnologia, sendo um importante fator de competitividade nessa quarta revolução industrial que vivemos, na qual as tecnologias digitais têm um papel central. A modelagem e simulação computacional de fenômenos naturais, físicos e biológicos, utilizando a Computação Científica, é aplicada na solução de uma miríade de problemas em quase todas as áreas do conhecimento. Além da plataforma computacional, o LNCC desenvolve há 40 anos aplicações e metodologias da Computação Científica e oferece um programa de pós-graduação de mestrado e doutorado multidisciplinar.

Quais as grandes linhas de atuação do Laboratório? e como qualifica o apoio recebido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações na gestão encerrada em dezembro?

Além da operação de uma plataforma computacional, o LNCC desenvolve pesquisas nas áreas de modelagem e simulação computacional, de métodos numéricos, de sistemas e processamento de sinais digitais e de computação de alto desempenho, com aplicações em biologia (síntese de proteínas e sequenciamento genético), tratamento de grande base de dados (Big Data), energia, óleo e gás, medicina assistida por computação, computação quântica, segurança cibernética, biodiversidade.

O apoio do MCTIC na gestão do ministro Gilberto Kassab foi fundamental para evitar a paralisação do supercomputador e manter as atividades de pesquisa e o programa de pós-graduação.

Como qualifica o apoio recebido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações na gestão encerrada em dezembro?

O apoio do MCTIC na gestão do ministro Gilberto Kassab, com a alocação de recursos adicionais no orçamento do LNCC em um momento de grandes restrições orçamentárias, foi fundamental para evitar a paralisação do supercomputador e manter as atividades de pesquisa e o programa de pós-graduação. O ministro e sua equipe demonstraram grande sensibilidade para o setor de Ciência e Tecnologia e suas ações desfizeram quaisquer dúvidas iniciais quanto ao compromisso de apoiar as atividades e o desenvolvimento das instituições de pesquisa em Ciência e Tecnologia. As Unidades de Pesquisa do MCTIC tiveram, em seu conjunto, grande apoio do ministro Gilberto Kassab.

O supercomputador enfrentou dificuldades em períodos recentes, dada a necessidade de recursos para sua manutenção. Qual é a situação atual?

Após um período inicial de falta de recursos que impossibilitou a disponibilização do Santos Dumont à comunidade por cerca de três meses, tivemos, logo depois de sua posse, a compreensão do ministro Kassab sobre a importância de se colocar o supercomputador em operação plena. Os recursos necessários foram alocados e desde então ele tem operado em regime pleno, sem paralisação, em regime 24×7. Em todos os momentos tivemos o pleno empenho do MCTIC, através de seu secretário executivo, para garantir a continuidade dos serviços computacionais do LNCC.

Em linhas gerais, qual o papel do supercomputador para a ciência brasileira? Que aplicações tem o supercomputador?

Tem-se dito que ingressamos no quarto paradigma de se fazer Ciência, quando o computador é utilizado não somente na resolução numérica de complexas equações matemáticas que modelam os fenômenos naturais, mas também no tratamento de grandes quantidades de dados (o Big Data) gerados por experimentos, observações de fenômenos e simulações computacionais para se obter respostas a questões científicas, analisando-se padrões de distribuição desses dados. Para esse tipo de uso supercomputadores são imprescindíveis. O que vai estabelecer a competitividade e abrangência da pesquisa científica e tecnológica dos países é, em grande parte, a possibilidade de uso de computação de mais alto desempenho. Como exemplo, o uso de Inteligência Artificial com metodologias de aprendizagem de máquinas é hoje uma tendência em várias áreas e isto requer, em muitos casos, supercomputadores. Os complexos modelos matemáticos que possibilitam a previsão meteorológica exigem supercomputadores, e quanto maior for seu desempenho mais rápido e mais precisa será a previsão (a previsão meteorológica para o dia seguinte é sem utilidade se necessitar de 48 horas para sua realização). A solução de um modelo para descrever a estrutura biológica ativa de uma proteína que demorava cinco mil horas de computação na plataforma anterior do LNCC necessita de apenas oito horas no Santos Dumont. Como já dissemos, mais de uma centena de projetos científicos de distintos grupos de pesquisa em 12 Estados (poderia ser todos) hoje utilizam o Santos Dumont em seus trabalhos, cobrindo as mais diversas áreas do conhecimento: química, física, engenharias, ciências biológicas, ciência da computação, ciências da saúde, geociências, astronomia, ciência dos materiais, matemática, meteorologia, biodiversidade, ciências sociais, linguística, farmácia, ciências agrárias. Tivemos projetos que utilizaram o Santos Dumont com resultados de repercussão internacional, como foi o caso da vacina contra o vírus do Zika desenvolvido com participação de pesquisadores da Fiocruz. O Brasil não pode prescindir de supercomputadores e da capacidade de utilizá-los se quiser competir internacionalmente.

Para se fazer ciência, é preciso recursos. E há uma batalha diária a se travar junto à opinião pública sobre a necessidade do conhecimento, sobre o valor da ciência para os avanços da sociedade. Como avalia a importância dessa discussão e como avalia que o LNCC pode contribuir com este debate?

A Ciência tem proporcionado grandes benefícios para toda a humanidade e sem ela a sociedade não avança. Em nossa vida quotidiana podemos identificar uma centena de exemplos disto. Países que investiram em pesquisas científicas e tecnológicas têm hoje uma vantagem competitiva grande em relação aos demais e isto se traduz em riqueza e bem-estar de sua população. O conhecimento é um dos produtos da Ciência e através dele podemos compreender melhor a nós e ao mundo que vivemos, além da capacidade de criar soluções a nossos problemas. A sociedade tem que ter consciência de sua importância e valorizar a atividade da pesquisa científica. Como recursos são sempre limitados, temos que ter algum critério para decidir sobre o quanto e como devemos despender tais recursos, de tal forma a obtermos o melhor relação custo-benefício. Como regra empírica adotada em muitos países, o nível de investimentos em C&T deve se situar na faixa de 2% a 3% do PIB, alguns poucos países chegando a percentuais ligeiramente maiores. Isto deve incluir os investimentos tanto do Estado como das empresas. No Brasil o investimento está muito baixo, creio que na faixa de 1,2% do PIB. É muito pouco para um país da importância e tamanho do Brasil. O LNCC representa apenas uma pequeníssima parcela desse investimento; ao dar suporte de computação de alto desempenho acessível a toda a comunidade de pesquisa em C&T, desenvolver metodologias de uso da computação científica na solução de complexos problemas e contribuir na formação avançada de recursos humanos, estamos cumprindo nossa missão e contribuindo para a sociedade. Através de exemplos de realizações que sejam de conhecimento da sociedade, o LNCC pode contribuir para melhorar a percepção da importância da Ciência. Para tal promovemos atividades e eventos de divulgação científica, em especial, a Semana Nacional de C&T em Petrópolis e o “LNCC de Portas Abertas” quando recebemos estudantes e outros cidadãos para conhecer a instituição, seus laboratórios e suas pesquisas, com conversas diretas com nossos pesquisadores.

“A sua liderança política, seu compromisso e seu entusiasmo pelas questões da Ciência e Tecnologia foram os elementos que contribuíram para ter um excelente desempenho à frente do MCTIC.”

Houve um avanço significativo em 2018 patrocinado por esforços do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que foi a regulamentação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Que avaliação o sr. faz deste instrumento e em que medida pode contribuir com o trabalho do LNCC?

A regulamentação do Marco Legal foi um passo importante para dar melhores condições, com mais flexibilidade, para a realização das atividades de instituições de pesquisa em Ciência e Tecnologia. O LNCC certamente se beneficia dessa legislação com possibilidades de atuação mais ampla e financiamento de projetos de pesquisa.

Em uma perspectiva ampla, que avaliação o sr. faz da gestão do ministro Gilberto Kassab à frente do MCTIC?

As desconfianças iniciais da comunidade científica, em função da fusão dos antigos Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e Ministério das Comunicações, e do ministro ser uma pessoa de fora da comunidade científica, foram totalmente desfeitas com a atitude de amplo diálogo e envolvimento do ministro com toda a comunidade. Ele transmitiu uma atitude de querer resolver, no melhor dos limites de seu mandato, os problemas aguçados que afetavam todo o setor de Ciência e Tecnologia. A sua liderança política, seu compromisso e seu entusiasmo pelas questões da Ciência e Tecnologia foram os elementos que contribuíram para ter um excelente desempenho à frente do MCTIC, conseguindo apoio do Governo e maiores recursos para o setor.

Como qualifica o enfrentamento feito pelo ministro e a equipe do MCTIC às dificuldades orçamentárias vividas no período?

Foi um período difícil com grandes cortes orçamentários mas o ministro e sua equipe demonstraram capacidade para atender demandas mais urgentes, impedindo que, de forma figurativa, o barco afundasse. Sua habilidade política e entusiasmo foram determinantes para tal.

Fonte: PSD