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noticias | 08 fevereiro 2019

Nanotecnologia ganhou relevância com apoio de Kassab

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Um “ninho de excelência científica” em Campinas, no interior de São Paulo, o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) é utilizado por cientistas para desenvolver soluções em diferentes áreas, como aplicações em uso da água, medicina e segurança, entre outras temas. A explicação é do seu diretor, Adalberto Fazzio, físico, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e atuante na Sociedade Brasileira de Física, que, em entrevista, faz um balanço dos resultados alcançados pela unidade de pesquisa nos últimos anos.

Detentor da Ordem Nacional do Mérito Científico, membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador visitante em institutos internacionais, Fazzio considera que a gestão do ministro Gilberto Kassab à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) foi positiva e destaca seu papel na conclusão das obras do acelerador de partículas Sirius. “A postura do ministro em relação ao Sirius foi histórica. Teve uma visão correta, pensando no Brasil. Uma visão de Estado. Em ciência, se não tiver esta visão de Estado as coisas não dão certo”, afirma.

O LNNano é uma divisão do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), órgão vinculado ao MCTIC que reúne um conjunto de laboratórios que desenvolvem pesquisas de ponta, atraem cientistas de outros países, e, em 2018, passou a contar – em fase experimental – com o acelerador de partículas Sirius, o mais avançado projeto da ciência brasileira e equipamento mais avançado do mundo, cujo início de operações está previsto para este ano.

Veja a entrevista a seguir:

Quais são as grandes linhas de pesquisa e articulação para a promoção de pesquisas que hoje são desenvolvidas no LNNano?

O LNNano, como os outros laboratórios vinculados ao CNPEM, têm algumas prioridades. Uma delas é o atendimento à comunidade científica de um modo geral e aí não olhamos nenhuma área específica. Por ano, temos atendido cerca de 500 pesquisadores, incluindo estrangeiros, como da Argentina – mas são sobretudo brasileiros. Além desses, temos as pesquisas internas, muito ligadas à nanomedicina, nanotoxicologia, nanomateriais 2D e também a parte de nanossensores. Essas áreas estão ligadas a explicações de grandes problemas nacionais, questões relevantes, como remediação de crises hídricas, segurança e defesa, saúde e outros temas.

Em que medida limitações orçamentárias são ponto de atenção para o LNNano? E como o sr. avalia o papel da gestão do MCTIC encerrada em dezembro de 2018 no enfrentamento dos cortes de recursos definidos pelo Governo?

Ocorreram cortes e o Ministério sempre esteve atento a essas questões e preocupado. Houve cortes no CNPEM e nos orçamentos dos laboratórios a ele vinculados. No LNNano, temos o programa SisNano (Sistema Nacional de Nanotecnologia) e não tivemos restrições. Isso para nós foi fundamental. É um financiamento para infraestrutura, com previsão até 2020, e nos proporciona continuar crescendo em nossa infraestrutura laboratorial. Hoje temos um parque de microscopia que é realmente de fazer inveja ao primeiro mundo. Por exemplo, a microscopia que temos aqui, ligada à área de biologia – para análise de proteínas e de macromoléculas biológicas –, é de primeira. E na área de nanomateriais também. Temos um parque de infraestrutura de muita qualidade. Obviamente há que se continuar investindo e crescendo, mas de uma forma geral estamos bem. O ministro Gilberto Kassab esteve no LNNano em 2018, em julho, inaugurando nossos microscópios, atento a isso. Obviamente gostaríamos de ter contratações de pessoal, até para fortalecer a interação com a comunidade científica, e também incrementar a unidade sob o aspecto de inovação. Sob esse aspecto, aliás, temos dialogado com grandes empresas para desenvolver projetos, por exemplo com a Petrobras.

Como o sr. qualifica este ramo de pesquisa que é a nanotecnologia?

A nanotecnologia é uma plataforma tecnológica, então nos laboratórios há físicos, químicos, biólogos, engenheiros… E, normalmente, a nanotecnologia ataca problemas que estão na fronteira de diferentes áreas. Nem sempre há sucesso, mas são problemas que podem trazer mudança de paradigma na inovação tecnológica. Isso é algo importante a observar: o LNNano não produz nada em escala, mas desenvolve pesquisas. Um projeto em parceria com uma empresa, por exemplo, e a partir daí pode seguir em uma importante linha de inovação tecnológica.

Como tem se desenvolvido hoje a cooperação científica do LNNano com outros países?

Temos uma cooperação importante com a China, na qual o LNNano lidera em todo o Brasil, como ‘hub’, envolvendo 10 instituições. Temos também cooperações com o Canadá, na área de nano celulose, e estamos agora abrindo nova frente de cooperação, iniciada em agosto com o apoio da Finep [Financiadora de Inovação e Pesquisa], a partir de indicação do ministro Kassab, que nos repassou recursos para cooperação com Portugal. Lá há um centro de nanotecnologia muito bom, com uma boa infraestrutura na parte de nano fabricação, e temos outras cinco instituições participantes. Estamos também abrindo uma parceria com a Inglaterra, na área de nano toxicologia.

O LNNano tem papel de ‘hub’, centralizador de projetos em nanotecnologias no país?

No olhar do Ministério, o LNNano é mais ou menos o ‘hub’, o centro de nanotecnologia no país. E esperamos que continue assim… No país temos muitas atividades nesse segmento nas universidades. No sistema Sisnano temos 26 instituições, sendo quatro do Ministério e as demais nas universidades.

“A postura do ministro em relação ao Sirius foi histórica. Uma visão de Estado. Em ciência, se não tiver esta visão de Estado as coisas não dão certo”.

E quanto ao Sirius, como o acelerador de partículas pode impactar o trabalho desenvolvido no Laboratório?

O que temos na área de microscopia no LNNano é complementar à atividade do Sirius. A análise primordial de materiais se faz no acelerador de partículas e o Sirius traz uma mudança muito grande em toda análise e caracterização de materiais que o cientista procure fazer hoje no Brasil. E em particular no LNNano estamos, por exemplo, olhando materiais da nossa biodiversidade. Ou seja: como você pega um elemento da nossa biodiversidade e o ‘desestrutura’, chegando, por exemplo, à nanocelulose, para testar sua aplicação para determinada necessidade. A análise disso com um equipamento da ordem do Sirius é algo de outro nível. O Sirius tem as características técnicas melhores para avançar nas pesquisas. Nas áreas de materiais também… Nanomedicina, nanopartículas, a caracterização por meio do Sirius poderá ser feita com muita maior precisão.

O ministro Kassab mencionou algumas vezes que o projeto Sirius não é um projeto de governo, mas de Estado. Como o sr. avalia a entrega do acelerador sob esse ponto de vista? E que pensa sobre os esforços feitos pela gestão do MCTIC encerrada em dezembro de 2018 para a entrega do Sirius, dadas as restrições orçamentárias e a crise econômica que o país atravessou?

A postura do ministro em relação ao Sirius foi histórica, foi realmente marcante. Porque ele conseguiu ver a importância do projeto e é muito importante que o gestor o faça, sendo ou não da área. Teve uma visão correta, pensando no Brasil. Uma visão de Estado. Em ciência, se não tiver esta visão de Estado as coisas não dão certo.

Que avaliação o sr. faz da regulamentação do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, levada adiante pelo MCTIC em 2018? Quando esse instrumento legal pode começar a trazer resultados?

Não há dúvidas de que com o Marco Legal há uma mudança muito grande. É algo que acompanho há muitos anos e fiquei muito feliz com sua aprovação. O CNPEM, por ser uma Organização Social não é diretamente impactado, mas poderá ter benefícios. Nos institutos de pesquisa e universidades, que têm dificuldades muito grandes para interação com empresas, o Marco Legal facilitará enormemente. O Marco Legal torna mais claro, mais fácil a interação entre instituição de pesquisa e empresa, como a universidade ou instituto de pesquisa pode contratar de forma mais simples. É um grande avanço e dentro de um ou dois trará resultados. Meu feeling é de que hoje as próprias universidades já têm a inovação como norte e com o Marco Legal isso se facilitará. Empresa já não é mais um ‘palavrão’ para o meio acadêmico.

Na sua visão, como a questão da nanotecnologia deve ser encaminhada no futuro nas políticas públicas?

Gostaria que a plataforma da nanotecnologia prosseguisse. Em toda a sua história, a nanotecnologia foi encarada como tema de Estado. A Iniciativa Brasileira de Nanotecnologia (IBN) foi construída na gestão Kassab e ainda não publicada, e isso demanda ter seguimento. Esperamos que prossiga agora no novo governo. Este tema já existia, mas não de maneira formal. Também foi feita a discussão para o Sistema Brasileiro de Nanotecnologia, o Sisnano, que demanda a sua formalização. Entre diversos aspectos, a iniciativa inclui a criação de uma comissão interministerial – 12 ministérios –, sob coordenação do MCTIC, para tratar temas relacionados a nanotecnologia. Outro aspecto: promover cooperações internacionais em nanotecnologia, de forma articulada. Bem como ações de popularização e divulgação científica, além de questões relacionadas a patentes e discussões sobre regulação específicas sobre nanotecnologia.

Fonte: PSD