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noticias | 26 dezembro 2018

Produção de combustível nuclear dá salto no País

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A unidade de extração de urânio em Caetité, na Bahia, teve atividades retomadas neste mês de dezembro. Foi o ponto de partida do ciclo de produção do combustível nuclear que abastece as usinas de Angra 1 e Angra 2, empreendimentos energéticos que asseguram o equilíbrio do sistema elétrico brasileiro.

Reinaldo Gonzaga, presidente das Indústrias Nucleares do Brasil, entidade vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, explica nesta entrevista a importância desta mina e resume o funcionamento do processo de extração e beneficiamento do urânio, produto estratégico para o País.

Como funciona o processo de extração de urânio em Caetité, na Bahia, e qual é a sua conexão com a fábrica de combustível nuclear da INB em Resende, no Estado do Rio?

A mineração de urânio é o ponto de partida para a produção do combustível nuclear que alimenta as usinas de Angra 1 e 2, que dão equilíbrio a todo o sistema de geração de energia elétrica. O processo de produção do combustível nuclear tem início na produção de urânio, sem a qual as outras etapas do ciclo do combustível nuclear não existiriam, ou o Brasil teria que exportar esse mineral, mesmo possuindo a sétima maior reserva do mundo. Essa, portanto, é a íntima e fundamental conexão do urânio com as outras etapas do ciclo. Quanto ao processo de mineração, não difere da mineração convencional, só cumpre regras muito mais rígidas, de modo a garantir a proteção dos trabalhadores, do público e do meio ambiente.

Que obra estava sendo feita na mina de Caetité, na Bahia?

Quando assumimos a presidência das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em 2017, a unidade de mineração de urânio em Caetité (URA) estava inativa devido à lavra a céu aberto na mina da Cachoeira estar exaurida e a mina do Engenho ainda não estar pronta. Além disso, tínhamos impeditivos operacionais como o pátio de lixiviação, que carecia de reformas, além de outras pendências de licenciamento para liberação operacional da unidade fabril. A unidade precisava de investimentos que foram feitos em nossa gestão, além de nosso esforço continuado e a nossa proximidade junto à unidade, motivando os trabalhadores e entendendo suas dificuldades para que os problemas fossem sanados o mais rápido possível. Enfim, nosso trabalho mais próximo à unidade, com foco na retomada da mineração, teve êxito graças aos esforços somados do corpo ministerial e também do corpo de colaboradores de nossa empresa. Em obras propriamente ditas fizemos o novo pátio de lixiviação, modernização dos equipamentos de operação e outras reformas que vão além das materiais. Outro ponto de grande contribuição foi o restabelecimento do diálogo com as comunidades do entorno, mostrando a todos as representatividades da região a importância e os benefícios da retomada da mineradora, bem como os malefícios e as incertezas empresariais relativas aos quatro anos de inatividade da unidade.

Como podemos dimensionar esta mina da Bahia e o que muda com a extração do minério neste local?

Atualmente não existe outro polo em atividade, mas existem projetos em paralelo, como a mina de Santa Quitéria, no Ceará, que irá produzir fosfato e urânio. Este novo polo de exploração está sendo desenvolvido em parceria público-privada entre a INB e a empresa Galvani. O projeto ainda está em fase de obtenção de licença prévia de local para implementação do empreendimento. Com sua entrada em operação, a INB aumentará sua capacidade de produção de urânio natural em cerca de duas vezes e meia. Entretanto, consideramos que o projeto Santa Quitéria somente entrará em operação e 2025.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) concede uma licença tanto para a extração do urânio quanto para a INB beneficia-lo. Como funciona o processo de acompanhamento do ciclo do urânio?

A CNEN é uma autarquia federal brasileira que controla toda as operações técnicas nucleares e também regula o uso da energia nuclear no Brasil. Sendo assim, todos os processos da INB, desde a mina, extração do Urânio até o seu beneficiamento final são regulamentados e fiscalizados pela CNEN. Com o trabalho realizado pela nova gestão da INB, todas as pendências junto a CNEN foram sanadas. Assim, atualmente todas as licenças para operação da URA em Caetité estão concedidas. Após meses de esforços da INB e da própria CNEN para alcançar as metas, decidiu-se que a operação da unidade será retomada, por etapas de processo. O processo ocorrerá de forma assistida, por técnicos da CNEN, que após fazerem avaliação e considerarem os testes satisfatórios procederão à liberação total.

Como é hoje o enriquecimento sem Caetité? É possível estimar a redução de custos decorrente desse início da extração do urânio em 12 de dezembro?

A produção de Caetité parte da extração do minério e de seu beneficiamento para resultar na produção do concentrado de urânio. Esta matéria-prima, totalizando um montante de 450 toneladas anuais, é comercializada em troca do urânio na forma gasosa, isotopicamente enriquecida ou não, para que se dê continuidade ao processo de fabricação do combustível nuclear nas instalações da INB em Resende, no Rio. A retomada da atividade de produção de concentrado na URA será um processo gradual, de modo que progressivamente possibilitará a redução na aquisição de concentrado de urânio, hoje efetuada no exterior. Embora o impacto não seja imediato, não há duvidas, contudo, quanto à relevância da retomada da operação e dos seus desdobramentos. Considerando a produção planejada para os próximos anos, a redução da aquisição de urânio no exterior pode atingir cerca de 20% no primeiro ano de produção e atingir em torno de 55% em anos seguintes.

De uma forma mais “conceitual”, qual a importância de Caetité para o ciclo nuclear do País?

A Unidade de Concentrado de Urânio localizada no município de Caetité executa a primeira etapa do Ciclo de Combustível Nuclear, constituída pela prospecção/pesquisa, lavra e beneficiamento de minério de urânio. Essas atividades culminam com a produção do concentrado de urânio (yellow cake), matéria-prima utilizada para a fabricação do elemento combustível, que abastece as usinas nucleares brasileiras (Angra I e Angra II).

Há quanto tempo a INB e a CNEN trabalham em Caetité e na unidade de produção do combustível em Resende? O trabalho de extração na Bahia representa que avanço nesse histórico do ciclo de produção do urânio?

Tendo recebido da CNEN a Autorização de Operação Inicial (AOI) em março de 2000, a produção de concentrado de urânio na unidade de Caetité teve início em julho do mesmo ano. A URA sempre teve o seu licenciamento nuclear regulado pela CNEN, que concedeu a Autorização de Operação Permanente (AOP) em 2009.

Esta matéria-prima, o concentrado de urânio, foi inicialmente (nos anos 1980) produzida no complexo minero-industrial (CIPC), em Caldas, Minas Gerais. Atualmente a URA em Caetité constitui a única mina de urânio em operação no Brasil, sucedendo a mina de Caldas, e utilizando-se de tecnologias e instalações mais modernas e eficientes.

Já a unidade de Componentes e Montagem da Fábrica de Combustível Nuclear, em Resende, teve a sua AOI concedida em agosto de 1982 e a AOP em janeiro de 1983. Posteriormente, foram inauguradas, no mesmo local, a Fábrica de Reconversão e Pastilhas e a unidade de Enriquecimento Isotópico, todas operando continuamente até hoje.

 

Qual a estimativa de reservas do País em termos de urânio, e como colocam o Brasil frente ao cenário global?

Segundo dados oficiais da Agência internacional de Energia Atômica (AIEA), o Brasil ocupa a sétima posição no ranking de depósitos de urânio sabidamente recuperáveis, com uma estimativa de 276.800 toneladas de urânio. Esse quantitativo nos põe equiparados à China, tendo por líderes mundiais: Austrália, Cazaquistão, Canadá, Rússia, África do Sul e Niger, nesta ordem. Vale ressaltar que nossa posição ainda pode avançar bastante, pois menos de 1/3 do território nacional foi pesquisado para confirmar a presença de jazidas de urânio no subsolo.

Que avaliação você faz do papel do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e do apoio que o órgão vem dando ao trabalho da INB na gestão e execução do enriquecimento do urânio e fornecimento de combustível nuclear para Angra?

O empreendimento para implantação de uma Usina de Enriquecimento Isotópico de Urânio na FCN visa dar autossuficiência à empresa na produção de combustível para as Usinas Angra 1, 2 e, no futuro, Angra 3. Isso representará uma economia direta de vultosos recursos anualmente despendidos para a contratação desse serviço no exterior, o que contribuirá significativamente para a redução da dependência da INB em relação aos recursos do Tesouro Nacional.

Historicamente, contudo, esse empreendimento, estratégico para o País, recebe dotações orçamentárias e financeiras aquém do planejado, o que impacta negativamente na consecução das metas estabelecidas. A fase 1, ora em andamento e que prevê a implantação de 10 cascatas de ultracentrífugas de um total de 40 a serem instaladas na FCN, deveria ter sido concluída há cerca de 10 anos.

Considerando esse aspecto, a despeito de quaisquer considerações adicionais quanto às reconhecidas dificuldades muitas vezes enfrentadas pelo Ministério, é possível considerar que o apoio proporcionado à INB pode ser aprimorado. Há que se reconhecer, contudo, os esforços empreendidos de forma conjunta à gestão atual do Ministério, lembrando, por exemplo, da inauguração da sétima cascata da INB em Resende pelo ministro Gilberto Kassab, e os esforços para que sejam retomadas as atividades na mina de Caetité.

Qual a importância de o País ter esse ciclo bem desenvolvido, desde a extração na mina, passando pela produção em Resende etc?

O Ciclo do Combustível Nuclear se inicia na mineração e beneficiamento do urânio, segue com a conversão do concentrado de urânio em gás, permitindo que passe pelo processo de enriquecimento isotópico. Uma vez enriquecido, o urânio volta ao estado sólido, de pó de urânio, que é transformado em pastilhas e acomodado nas varetas e na estrutura do elemento combustível, quando então está em condições de gerar energia elétrica nos reatores de Angra 1 e 2.

O domínio do ciclo completo beneficia o país: economicamente, pela nacionalização do processo de produção do combustível nuclear; socialmente, por gerar milhares de empregos diretos e indiretos na sua cadeia produtiva; ambientalmente, por representar uma importante fonte energética na composição diversificada da matriz nacional, evitando o uso excessivo de outras fontes que contribuem com a emissão de carbono e para o efeito estufa; e, ainda, tem importância pelo seu caráter estratégico, pois fortalece a independência e soberania nacionais no âmbito da geração de energia e no desenvolvimento de tecnologia brasileira para a propulsão núcleo-elétrica do submarino nuclear da marinha.

Do ciclo do combustível, o Brasil só não realiza, hoje, a conversão do urânio em gás, que precisa ser toda feita no exterior, mas o Brasil já detém o know-how dessa tecnologia e está caminhando para o domínio completo do ciclo do combustível, quando então fará parte de um seleto grupo composto hoje apenas pelos Estados Unidos e a Rússia.

Fonte: PSD